segunda-feira, 2 de agosto de 2010

    Quando te vi, amei-te muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei. Nasci pra ti antes de haver o mundo. Não há cousa feliz ou hora alegre. Que eu tenha tido pela vida fora. Que o não fosse porque te previa.
                                                                                                  Fernando Pessoa

Abaixo assinado contra tantas coisas

    Eu tenho tantas coisas para fazer que nem sei por onde começar... Eu tenho tantas coisas a explorar que nem sei por onde navegar... Eu tenho tantas coisa a descobrir que nem sei por onde ir... Eu tenho tanto amor pra dar que nem sei como demonstrar... De tantas coisas que tenho para fazer só gostaria de uma realizar: te dar prazer. São tantas coisas, mas só essa eu queria ter. Sei que essas são rimas pobres, mas o que sinto é tão rico, imenso, puro e verdadeiro, e de tantas coisas, só essa eu queria saber. Sentir não basta, eu quero, muito, fazer. O que me falta? Não sei. O que me sobra? Palavras. Muitas palavras que voam como plumas no ar. Somem como se adentrassem um vazio. Distanciasse do real. Chega de palavras! Abaixo todas as palavras ao chão! Exterminarei todas as palavras, todos os signos verbais. Não me basta falar. Agora prezo pelo fazer, pelo prazer, pelo dar, pelo receber...
               realizado em
                                     você...  

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindo
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminarias
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas
como essas que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nuca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou.

                                            Mário Quintana - (Quintana de bolso)

Saudade

A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo.

                             Mário Quintana - Poesia Completa - Preparativos de Viagem.

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença mistériosa da vida...
Mas quando surge és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar os meus olhos para ver-te.

                                                                 Mário Quintana

O amor é quando a gente mora um no outro.

                                                                Mário Quintana

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!


                                   Mário Quintana - Espelho mágico

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Tempo



 A morte é inevitável. Não se pode prevê-la ou refutá-la. A morte cala. Cala todas as vozes. Todas as vozes num silêncio mudo. Não tenho medo da morte. Não tenho medo de morrer. É o nosso fim implacável que cala todas as dúvidas, todas vozes e impõe silêncio.
    A morte está em mim. Está em todos nós. Temo não cumprir minha missão antes de ir. Temo não realizar meus sonhos. Temo em desperdiçar o tempo achando-o infinito. Não tenho muito tempo. O tempo que me resta é muito pouco, tão pouco que se dissipa por entre os dedos. Temo em não aproveitar a minha vida e ficar a me lamentar enquanto poderia apenas viver. Temo em de repente não me sentir mais em meu corpo, num tempo não previsto: antes do tempo programado para fazer as pessoas felizes. Não temo a morte. Meu temor é o tempo. O tempo diante da vida que passa a compassos largos.
    Temo em ver o tempo passar e não estar perto da pessoa que mais amo. Temo em ver o tempo dissipar-se e não ter tempo de dizer um simples "Eu te amo." Não sei o que o dia de amanhã me reserva. Viverei um dia com o outro, sem perder tempo para o azar e para o próprio tempo que me rouba todos os dias, um dia de minha vida.
 O tempo é meu inimigo. Inimigo em todos os sentidos. Ele afasta, aos poucos, quem eu amo: no tempo e no espaço. Ele faz ficar guardado na lembrança e no coração um sentimento não correspondido. Um sentimento que dói com o tempo. Um sentimento que o tempo não faz esquecer e deixa mais latente na memória. Ele faz doer esse coração, machuca.
    O tempo é o meu maior dilema. O tempo da morte é incontrolável. Só me resta controlar o tempo da vida. Controlar os ponteiros do tempo, de minha própria vida, é o que me sobra, antes que o tempo tire de mim a única coisa que me resta: amor. 

terça-feira, 13 de julho de 2010

As três experiências

    Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar "meus filhos". O amar os outros é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
    E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que seguir. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
    Quanto "aos meus filhos", o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possivel dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Tenho uma descência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
    Sempre me restará amar. Escrever é uma coisa extremamente forte, mas que pode me atrair e me abandonar. Posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nehuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

                                                                                             Clarice Lispector.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Apenas

    As coisas sempre acontecem quando menos esperamos. Quando menos esperamos nos deparamos com situações que nos embaraçam ou que nos alegra. A vida como diz um velho e esdrúxulo ditado "a vida é uma caixinha de surpresa". E coloca surpresa nisto. Quero poder a partir de hoje, do zero, reconstruir a vida, e mostrar o quanto ela é maravilhosa, e o quanto pode ser maravilhosa ao seu lado, o quanto posso te dar alegrias, o quanto superarei as suas expectativas e o quanto seremos felizes: Eu e Você.
    Fico feliz por cada coisa que me diz. Com as novas opiniões ao meu respeito e com a chance que me dá, não a desperdiçarei. Andaremos de bicicleta, com os cabelos revoltos ao vento. Ouviremos nossas músicas favoritas, curtiremos todas as coisas boas e maravilhosas que a vida nos proporcionar. Não desperdiçarei nem um segundo dos anos, meses, semanas e dias que me restam para viver.
    Como se tivesse nascido, apenas quero viver!